Bate-papo com estranhos.

Por mais tentativas de criar meios para se relacionar com as pessoas, o ser humano sempre está sozinho com a sua própria existência. Dentro de uma cidade grande como São Paulo, essa solidão se manifesta, grande parte do tempo, como uma grande carência.

Os encontros inusitados que a vida provoca me colocam de frente com algumas situações desse tipo. Não sei se é a cor ruiva do meu cabelo, a maneira como eu me visto ou simplesmente a minha feição, mas sou alvo fácil de pessoas aleatórias que gostam de puxar assunto com desconhecidos.  Sou parada na rua, em shoppings, no metrô e em diversos outros lugares por pessoas que não conheço no mínimo umas três vezes por semana.

Alguns encontros me impressionam mais, outros apenas deixo passar como parte da minha rotina. Os dois mais interessantes aconteceram no ponto de ônibus em frente ao meu prédio. Eu sempre estou parada com o meu ipod, esperando o ônibus chegar e pensando na vida. Uma manhã de um domingo qualquer, estava exatamente assim quando um morador de rua pára do meu lado e me pede para tirar os fones de ouvido. Eu não consigo dar as costas, ser mal educada, por mais que eu não tenha um centavo para dar, eu tiro os fones e escuto ele me pedir qualquer trocado pra comprar comida. Falo para ele que não tenho. E então, ele começa a contar a sua história:

“Moça, você não sabe, mas ninguém tem respeito com moradores de rua. Eu tenho AIDS. Eu casei com uma mulher há 25 anos e ela me passou essa doença. Eu não sabia que ela tinha isso, ela não me falou nada. Quando eu descobri eu quis matá-la, mas eu amo demais essa mulher, sabia? Eu to aqui porque ela ta muito ruim, no hospital, eu não tenho dinheiro pra pagar nada pra ela e ela está sofrendo, tá muito fraca, os médicos disseram que ela não vai durar muito, mas eu fico do lado dela até o fim. Eu durmo na rua, eu peço comida e ninguém me respeita. Fui pedir comida num bar outro dia, o cara deu um tapa na minha cara e me chamou de vagabundo. Mas ninguém quer dar emprego pra uma pessoa como eu também. E olha, você pode parar pra conversar com muitos moradores de rua, eles serão muito mais educados do que qualquer pessoa com educação por ai. E com toda essa minha vida, sabe do que eu tenho vontade? De me matar! Mas eu não vou fazer isso não porque eu quero estar do lado da minha mulher e quero cuidar dela e é por ela que eu estou vivo.”

Passei quase 10 minutos escutando os desabafos dele. Nesse tempo, as emoções que eu via  nos olhos desse senhor eram intensas: iam do ódio (inclusive eu achei que ele fosse me bater em alguns momentos), passando por tristeza até chegar na ternura quando ele falava da mulher. Quem diria, não? Amar uma mulher que colocou a sua existência em xeque-mate.

Outro encontro, mais recente, aconteceu numa manhã de um sábado de ressaca. Dessa vez estava atrasada e tinha esquecido o meu ipod em casa, portanto estava encostada no poste, divagando dentro do meu mundo imaginário. Vejo um senhor, com seus 70 anos, vindo na minha direção, ele olha pra mim e me diz “Bom dia!”. Na hora, vejo que, apesar de vestido de uma maneira até que elegante, ele não tem os dentes da frente, segura uma espécie de estojo nas mãos e usa uns óculos escuros muito pequenos.

Não contente com o seu simples bom dia, ele começa a puxar assunto comigo sobre o clima de São Paulo que, apesar de ser inverno, parece que estamos em meados de março, ou seja, calor! Depois de me falar que ele achava que até a hora do almoço ia esquentar um pouco mais, ele diz:

“Esse calor só vai piorar. Eu estudei astronomia e li muito sobre isso. A Terra é o terceiro planeta mais próximo do sol, depois de Mercúrio e Vênus. Esses dois já foram dominados pelo sol. Agora nós aqui, lá pra 2040 não vamos agüentar de calor. Os termômetros já registram temperaturas de 50 graus Celsius. Em Las Vegas tá 48 graus, no Rio, no Nordeste já registraram 46 graus. O sol vai dominar a gente. E eles sabem disso porque a ciência consegue coisas incríveis, eles têm telescópios que são capazes de captar trilhões de anos luz que equivalem a não sei quantos quilômetros. E o povo não sabe, porque não acredita. Esse povo que lê um livro só, não consegue ver a verdade, mas eu sei porque eu estudei. A bíblia é um ótimo livro, Jesus Cristo existiu e tudo mais, mas não dá pra acreditar só nela. A gente descende dos homo sapiens, no começo era todo mundo macaco, mas a gente evoluiu e agora chegamos aqui e o povo continua acreditando na bíblia. Mas eu não!”

Chega o ônibus, ele me deseja sorte, sucesso, paz e sobe no mesmo ônibus que eu. Acredito que a conversa fantástica vá se prolongar, mas ele senta no primeiro assento, como se nada tivesse acontecido. Depois de dois pontos ele desce e senta no ponto em frente ao cemitério, provavelmente ávido por encontrar mais alguém com quem ele possa compartilhar um pouco do seu mundo.

1 Comentário

1 de novembro de 2011 às 12:55 pm

quero bater papo

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